Vamos falar de...luto
Bla bla bla
Tenho uma forma muito particular de lidar com o luto que basicamente consiste em não fazê-lo.
Quando alguém próximo de mim morre viro estátua, transformo-me em pedra, é como se não fosse nada comigo.
Como sou tão forte e não me vou abaixo não preciso de ninguém para me consolar, ao invés torno-me na rocha estoica que serve de apoio aos restantes.
Sou eu que trato da parte burocrática dos funerais, dos arranjos e disposições, ultimas vontades e até da roupa para os defuntos vestirem.
Chegando à parte dramática do funeral, no decorrer do enterro ou cremação, não me cai uma lágrima que seja, tenho de amparar quem chora.
O meu coração dói e fica mais pequeno, mas é mais por aqueles que amo chorarem do que por quem partiu, porque esses gosto de acreditar que se encontram em paz.
Tenho a sorte de não ainda não ter passado por grandes perdas, não sei se quando a hora dos MEUS chegar se consigo aguentar com a mesma estoicidade...
Já perdi uma amiga, tios, bisavós, avó...
A minha avó já morreu à mais de 10 anos mas é um assunto pesado para mim.
A minha avó tinha um feitio muito peculiar.
Dos vários netos eu era a primeira e talvez por isso a predileta.
Não era uma mulher de afetos, não era uma avó no conceito da palavra, mas nunca me tratou mal nem me ignorou, o mesmo já não poderão dizer todos os outros netos.
Só já adulta percebi a animosidade que havia entre a minha avó e a minha mãe, sua filha. A minha mãe teve uma infância difícil e uma adolescência pior. Graças à minha avó.
Felizmente e ao contrário da minha avó, a minha mãe tem um temperamento meigo, é muito dada a afetos e sentimentalismos.
Não sei de quem os herdou ou com quem os aprendeu.
Também não sei a origem ou motivo do desapegamento da minha avó.
Cheguei a por a hipótese de a minha mãe ser uma filha bastarda do meu avô que a minha avó de alguma forma tivesse sido obrigada a criar. Mas as semelhanças físicas da minha mãe com ela são demasiado evidentes para essa possibilidade ser válida.
Na verdade, à pouco tempo em brincadeira alguém me tirou uma foto para o FaceApp e quando me vi envelhecida ia morrendo de susto porque sou (ou serei?!) igualzinha à minha avó.
A minha avó morreu sem que eu tenha tido a ousadia de desvendar este mistério, de por tudo em pratos limpos, de tentar uma conciliação entre as duas.
O que resultou portanto numa grande tristeza da minha mãe que, se já vivia triste com tudo o que se passou (e que não se passou também) mais triste ficou por não se terem conciliado a tempo.
E a mim pesa-me esta pena também.
Nem eu nem a minha mãe voltámos ao cemitério deste então.
Não foi combinado, simplesmente não falamos disso, se pensamos não o dizemos em voz alta, é um assunto tabu porque é demasiado doloroso para ela que o viveu e para mim que sofro pelo que ela sofreu e por não ter conseguido consertá-lo.
Pensei que a restante família, ainda que não conhecendo se calhar tão bem estes contornos como eu, compreendesse e respeitasse esta nossa decisão e na verdade este meu traço de personalidade que me impele a desligar para não sentir.
Mas eis que afinal não.
No dia 1 deste mês, um querido primo meu teve a simpatia de ir ao cemitério, arranjar a campa, trocar as flores.
Teve ainda a amabilidade de tirar fotos de vários ângulos, posições e filtros.
Fez uma fotomontagem.
No fim dizia "Nós ainda nos lembramos de ti!".
Não tendo eu redes sociais e portanto não tendo assim acesso à sua sentida partilha nas várias redes, fez questão de encaminhar para mim com a mensagem "Vê se para o ano também vêm, parece mal para a avó e para as pessoas que vocês nunca venham cá". (Que pessoas?!?)
Esta coisa ficou assim que a cozinhar em banho-maria mas virou para a panela de pressão e o meu primo não se livrou de um belo de um telefonema meu no qual lhe expliquei que era uma decisão minha e, quer ele gostasse quer não, teria de a respeitar.
Ainda fui um bocadinho mazinha e disse-lhe que achava aquele vídeo uma piroseira, que a minha avó de certeza não tinha acesso ao facebook ou instagram lá onde estivesse e, que mesmo que tivesse havia de achar aquilo uma valente palhaçada.
Não se preocupem, que nem eu nem o primo estamos zangados. Ficou tudo esclarecido e em pratos limpos, concordámos em discordar, em termos opiniões diferentes e em as respeitar-mos daqui para a frente.
Mas já passaram mais de duas semanas e continuo a remoer.
A única foto que tenho da minha avó, uma foto tipo-passe que ela tirou pouco antes de morrer, teima em aparecer-me em tudo o quanto é lado.
A última vez foi na gaveta das cuecas.
Começo a acreditar que não devo ter só uma foto, são várias com certeza que arrumei em sítios distintos para o caso de uma se perder e, que agora o Universo ou a minha cabeça decidiu por à frente do meu nariz só para me massacrar.
A verdade é que não sei se voltar ao cemitério me traria alguma paz porque nunca lá voltei.
Por outro lado, não me consigo decidir a ir.
Por mim.
E por que não posso ir sem dizer à minha mãe, porque sinto que a estaria a atraiçoar.
Mas já sei que não vou.
Há por aí alguém que também não vá ao cemitério?
Odeio cemitérios.
Quando eu morrer quero ser cremada e podem deitar as minhas cinzas para o mar.
Se der muito trabalho até as podem despejar pelo ralo da sanita... hão-de chegar ao mar de qualquer forma.
Bla bla bla![]()




