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Vamos falar de... Bla bla bla

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Leituras de Verão

18
Jul19

Vamos falar de...Filho da Mãe, Hugo Gonnçalves


Bla bla bla

Não gosto de ler livros autobiográficos porque sinto que por muito que contem falta sempre qualquer coisa.

Não gosto de livros autobiográficos relacionados com perdas porque embora reconheça que possam ser catárticos para quem os escreve, são devastadores para quem os lê.

 

 

Acho que o primeiro do género que li foi o Paula da Isabel Allende.

Ao lê-lo senti que me estava a infiltrar num sitio privado que não me pertencia mas mesmo assim era impossível não me imiscuir.

Chorei pela mãe e chorei pela filha.

 

 

 

filhomae.jpg

 

Em Filho da Mãe Hugo Gonçalves inicia uma viagem, principalmente interna, relacionada com o luto pela morte da sua própria mãe quando ele era ainda uma criança.

Acho que pouca coisa há que seja mais pessoal do que o luto de cada pessoa, por isso também ao ler este livro me senti constantemente como uma intrusa.

 

Na minha vida conheci três pessoas que perderam um dos progenitores quando ainda eram crianças:

  • A Joana tinha 9 anos quando perdeu a mãe. Na escola a professora contou-nos e pediu-nos para sermos simpáticos com ela. Que eu saiba nunca ninguém falou com ela, nunca ninguém lhe perguntou como se sentia, como estava... nada. Era um assunto tabu... Com 9 anos o que poderíamos dizer?
  • O André ficou sem pai com 13 anos. Ficou mais irascível e isolava-se com frequência. Amadureceu mais cedo do que os colegas com a mesma idade e começou a preferir as amizades femininas ao invés das masculinas. Hoje, com 34 anos, diz que não quer ter filhos. Quando lhe perguntei porquê a sua resposta foi pronta "E se eu morro?". Acredita piamente que se tiver filhos vai morrer mais cedo.
  • A Mariana tinha 11 anos quando a minha tia morreu vitima de doença prolongada. Foi uma outra prima mais velha, comigo de um lado e outra prima do outro, a quem coube as palavras: ""Sabes que a tua mãe estava a sofrer não sabes? Que estava muito doente e cansada? Agora a mãe está num sitio melhor, já não sofre mais." Nessa mesma noite, a minha prima confessou-me que não conseguia chorar. Ela tinha chorado copiosamente toda a tarde, por isso pensei que ela estivesse a dizer que não conseguia chorar mais. Ela explicou-me que não, que chorara a pensar em outras coisas tristes, e não a pensar que a mãe tinha morrido. Só anos mais tarde percebi que com onze anos não temos a noção da imensidão da perda. 

 

Tocou-me que o Hugo Gonçalves tenha sabido da morte da sua mãe com uma variante muito semelhante desta frase.

 

Tal como ele fazia em criança, ainda eu hoje quando vou a casa da minha avó fico na expectava de que a vou encontrar. Ou ter por menos um vislumbre do espectro dela.

E percorro toda a casa, com uma desilusão crescente ao perceber que não vou encontrá-la.

 

Se eu pisar só os quadrados do mosaico do chão, sem pisar as linhas...

 

 

Sinopse

Perto de fazer quarenta anos, Hugo Gonçalves recebeu o testamento do avô materno dentro de um saco de plástico. Iniciava-se nesse dia uma viagem, geográfica e pela memória, adiada há décadas. O primeiro e principal destino: a tarde em que recebeu a notícia da morte da mãe, a 13 de Março de 1985, quando regressava da escola primária.

Durante mais de um ano, o escritor procurou pessoas e lugares, resgatando aquilo que o tempo e a fuga o tinham feito esquecer ou o que nem sequer sabia sobre a mãe. Das férias algarvias da sua infância aos desgovernados anos de Nova Iorque, foi em busca dos estilhaços do luto a cada paragem: as cassetes com a voz da mãe, os corredores do hospital, o colégio de padres, uma cicatriz na perna, o escape do amor romântico, do sexo e das drogas ou uma roadtrip com o pai e o irmão.

Esta é uma investigação pessoal, feita através do ofício da escrita, sobre os efeitos da perda na identidade e no caráter. É um relato biográfico —tão íntimo quanto universal —sobre o afeto, as origens, a família e as dores de crescimento, quando já passámos o arco da existência em que deixamos de fantasiar apenas com o futuro e precisamos de enfrentar o passado. É também, inevitavelmente, uma homenagem à figura da mãe, ineludível presença ou ausência nas nossas vidas. Sem saber o que iria encontrar na viagem, o autor percebeu, pelo menos, uma coisa: quem quer escrever sobre a morte acaba a escrever sobre a vida.

 

 

Imagem daqui

 

 

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